Entre o bastão e a paredeLuís Baptista* - luisbaptista.net@gmail.com
Para quem, como eu, tem participado nas várias manifestações dos últimos tempos - as da central sindical de classe (CGTP) e outras marcadas por vários movimentos e plataformas -, facilmente percebemos que um cenário de guerra, como aquele que aconteceu na tarde de 22 de Março, era inevitável.
Primeiro, porque ao agudizar-se a luta de classes, assistiremos naturalmente a um processo de radicalização da luta social e a uma consequente resposta repressiva por parte do poder dominante. Segundo, porque desde os incidentes da última greve geral, a 24 de Novembro, uma espécie de espinha ficou encravada nas gargantas do povo e da polícia. Como que esperando o pretexto, numa pequena mas combativa manifestação, e quando se voltaram a extremar posições durante os piquetes de greve, caiu a espinha pela goela, isto é, bastonada abaixo. Terceiro, porque a agressividade da resposta policial é, em larga medida, explicada pela correlação de forças entre quem protesta e quem reprime. E naquela tarde de quinta-feira, a correlação de forças era vantajosa para as autoridades.
Isto é de estranhar? Não. Sabemos que a polícia está ao serviço da classe dominante, independentemente da solidariedade individual de cada um. Não se podem posicionar contra quem lhes paga o salário ao fim do mês. Qualquer desobediência a uma ordem da hierarquia pode acabar em despedimento, risco que os agentes da autoridade não estão disponíveis a correr. Primeiro temos que ganhar o povo, só depois as forças da ordem!
Conscientes de que outros confrontos se seguirão, restam-nos as organizações sociais, os sindicatos (de confiança!), os movimentos e plataformas, a população em geral, para refletir sobre as estratégias que devem ser seguidas e sobre a resposta que deve ser dada. Sabemos que a disponibilidade de cada individuo para resistir à repressão não é igual. Sabemos também que há factores de ordem social, cultural, geracional e política, que condicionam esta discussão e uma tomada de posição.
Tenho defendido que deve começar um processo progressivo de radicalização das formas de luta politica e social. Nós, os jovens, estamos mais disponíveis para adoptar essas formas de luta. Contudo, isso só pode acontecer ganhando primeiro as pessoas, sem radicalismos autodestrutivos e infantis. Este processo só é possível com maior consciencialização colectiva.
Se eu tiver de escolher entre defender um polícia ou um companheiro de luta, não hesitarei um segundo. E outra coisa também é certa: com ou sem polícia, com ou sem cassetete, com ou sem sangue, o capitalismo que se cuide. Entre o bastão e a parede, a luta dos trabalhadores e da juventude sai reforçada!
*Estudante de Ciência Politica e Relações Internacionais na FCSH-UNL e Dirigente Associativo (A.I.J). O autor colabora pontualmente com Blog da Associação Iniciativa Jovem.